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15.11.08

Ma(i)s feliz


O nosso amor não vai parar de rolar

De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas

O nosso amor não vai olhar para trás

Desencantar, nem ser tema de livro

A vida inteira eu quis um verso simples
P'ra transformar o que eu digo

Rimas fáceis, calafrios
Fure o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu

Por um segundo mais feliz


Adriana Calcanhoto

9.10.08

Extinguia-se



Extinguia-se o perfume dos vermelhos nenúfares.
O ar leve do Outono penetrava através das pérolas de jade da cortina.
Quem me mandava essas mensagens de amor, desde as nuvens,
na barca das orquídeas, ao resplendor das tochas?
É a estação em que voltam os cisnes bravos
e o luar inunda o pavilhão do oeste.
As flores - é a sua sina - revoluteiam e espalham-se.
A água segue ao seu destino correndo a concentrar-se num mesmo lugar.
Os seres da mesma espécie convergem num mesmo sonho.
Mas nós, ai!, estamos separados, e eis-me aqui, solitária, já em excesso acomodada à tristeza.
Nada será bastante para destruir este amor.
Por um momento deteve-se nos meus olhos; mas agora gravita já no meu coração.


Li Ts'Ing Chao

27.8.08

Em Nome da Terra


(...) Vamos sós. Não terei medo da tua presença com toda a sua força de me fazer ajoelhar. Olharei o teu corpo na sua transparência incorruptível. Sofrerei em mim a descarga do universo e não gritarei o teu nome. Porque estará em mim e eu hei-de sabê-lo. A areia brilhará de uma luz pálida, pisá-la-emos devagar a um impulso fortíssimo e lento. Estaremos nus desde o início, sem vergonha anterior. Nudez primitiva, não a saberemos. Porque será uma nudez para antes de os deuses nascerem. Então mergulharemos nas águas do rio e deitar-nos-emos na areia. E olharemos o céu limpo e sem estrelas. E acharemos perfeitamente natural, porque a iluminação estará em nós. Erguer-nos-emos por fim e eu baixar-me-ei ao rio e trarei água na concha das mãos. E derramá-la-ei imensamente e devagar sobre a tua cabeça. E direi para toda a história futura, na eternidade de nós.
- Eu te baptizo em nome da Terra, dos astros e da perfeição.

E tu dirás está bem.


Vergílio Ferreira

Imagem: Gustav Klimt, The Tree of Life


27.5.08

Apesar De Mim

Primeiro disse-te que não sabia o que queria. Depois disse-te que não te queria.

Pedi-te, vezes sem conta, que guardasses os fósforos. Que te ias queimar.

Mas tu não desististe de vir bater à minha porta.

Gosto de abismos. Disseste-me num tom de quem está acostumado a ganhar coisas.

Atirei-te a treta de que estava estragado e que não saberias nunca pôr-me num lugar.

Mas mesmo assim vieste a correr depois de teres recebido a minha mensagem queres aparecer cá em casa?

À porta declarei que me sentia sozinho, triste e carente... blablabla... e anunciei-te que só precisava de prazer.

Entraste.

Quando acabámos quis devolver-te ao teu lugar.

Disse-te que não estava habituado a dormir acompanhado e que o melhor era ires passar o resto da noite na tua casa.

Podias ter saído da minha cama com orgulho, mas antes de te levantares sorriste e deste-me um beijo na testa.

Merda.

Antes de saíres perguntas se me podes ligar amanhã e eu respondo que vou ter um dia-de-cão e acabo a longa frase com um talvez dê.

Às cinco da tarde tenho três chamadas-não-atendidas tuas no meu telemóvel.

Não te ligo de volta apenas porque não sei o que te dizer ou se tenho alguma coisa a dizer-te.


Á uma da manhã recebo uma mensagem tua



Amo-te, apesar de mim. Beijo.




14.12.07

Reverberação I

- ...

- Quanto a mim, ando cansado de andar por aí em pontes e pontas-de-pé.

- ...

- Sim. Tenho andado a tentar arrumar a minha casa. É uma espécie de exercício de reconciliação entre o pó e a luz. Entre as fogueiras e as marés. Coisas domésticas. (è que eu sei muito pouco de limites fora de mim.)

- ...