23.9.11
Das borboletas do estômago
31.12.08
um pensamento para 2009.
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. O amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer."
José Luís Peixoto
4.12.08
Eu devo.
...
- Eu devo rasgar minha face para que a tua
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
...
Herberto Helder, O Amor em visita
15.11.08
Ma(i)s feliz
O nosso amor não vai parar de rolar
De fugir e seguir como um rio
Como uma pedra que divide um rio
Me diga coisas bonitas
O nosso amor não vai olhar para trás
Desencantar, nem ser tema de livroA vida inteira eu quis um verso simples
P'ra transformar o que eu digo
Rimas fáceis, calafrios
Fure o dedo, faz um pacto comigo
Num segundo teu no meu
Por um segundo mais feliz
Adriana Calcanhoto
9.10.08
Extinguia-se
Extinguia-se o perfume dos vermelhos nenúfares.
O ar leve do Outono penetrava através das pérolas de jade da cortina.
Quem me mandava essas mensagens de amor, desde as nuvens,
na barca das orquídeas, ao resplendor das tochas?
É a estação em que voltam os cisnes bravos
e o luar inunda o pavilhão do oeste.
As flores - é a sua sina - revoluteiam e espalham-se.
A água segue ao seu destino correndo a concentrar-se num mesmo lugar.
Os seres da mesma espécie convergem num mesmo sonho.
Mas nós, ai!, estamos separados, e eis-me aqui, solitária, já em excesso acomodada à tristeza.
Nada será bastante para destruir este amor.
Por um momento deteve-se nos meus olhos; mas agora gravita já no meu coração.
Li Ts'Ing Chao
12.9.08
à espera de ser aberto por uma palavra
Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
18.8.08
em-fim.
Olho-te enquanto me olhas.
Fere-me esse brilho que te desce do olhar à boca.
Penso em beijar-te.
Dizes coisas que não escuto porque me detenho no movimento da tua boca.
Apercebes-te que respiro profundamente e reconheces o meu desejo.
Olhas-me enquanto te olho.
Aqueces-te no fogo do meu cio.
Pensas em beijar-me.
Procuras palavras que denunciem o meu lugar de rebentação.
Apercebo-me que respiras profundamente e reconheço o teu desejo.
Culpados e submissos, amamo-nos em-fim.
13.8.08
Um amor-de-verão.
Quando é que comecei a gostar de ti?...
Contas-me que quando cheguei à tua vida me pegaste ao colo.
Mastigavas as coisas com o olhar…. Eras tão pequenino! … E depois sorris e olhas para o chão à procura de uma memória.
Contas-me que, a cada Verão, me viste crescer. Que me vis-te tornar-me num belo menino, depois num belo e educado rapaz, depois num belo, inteligente e educado homem.
Eu também me lembro de ti.
Lembro-me de todos os nossos abraços de todos os nossos ocasionais encontros e despedidas. Com poucas palavras. Sempre poucas palavras.
Não sei muito bem quando foi que descobri a beleza da tua presença. Na verdade, nunca esperei por ti. Nunca soube qual era a tua profissão, o teu maior medo, ou porque é que gostas tanto de vermelho…
Quando é que comecei a gostar de ti?...
Por entre os Verões de cada ano, vi-te casado. Conheci a tua mulher e depois a tua filha e a paixão que sentias por cada uma delas.
Vi-te ostentar a riqueza que te obrigou a deixar a família e te transformou num bem-sucedido-estranho-a-dois-países.
Segui o rasto de alegria que deixavas por onde quer que passasses e assim descobri a beleza do teu corpo de homem.
...
Uma noite de Verão.
Os nossos corpos encontram-se hoje. Frente a frente. Inevitáveis e iguais.
Apertas-me com os teus braços e sinto o teu coração a querer abandonar-te o peito.
A tua boca toca-me o pescoço e de repente perdemos a direcção das mãos.
Choras e não te pergunto porquê porque adivinho que seja pelo Tempo, por ti e por mim.
Beijamo-nos sofregamente. Perdemos a noção de espaço e, desajeitados, apressamo-nos a recuperar tudo, a descobrir tudo, a provar tudo, a dar tudo…
Despedimo-nos de nós e da noite.
Enquanto me abraças dizes que os meus olhos estão cor-de-castanhas-ao-luar e eu, ainda a arrumar o prazer, sorrio-te como se me segurasses ao colo outra vez.
José Laura Saavedra
25.7.08
quando te vejo*
Escrevo,
certamente,
palavras inúteis,
porque não sou mais
do que um arrepio
quando te vejo.
Vitor Encarnação, Coisas de Muros e de Asas
12.6.08
Para ti. Hoje. Sem reticências.
(...)
Estas palavras nasceram para tu saberes que és e serás sempre (...) e que hoje, aqui e agora, sinto que TE AMO sem reticências.
teu Fred_*
29.5.08
Do Amor Puro
Oh! meu bem-amado
Quero fazer-te um juramento, uma canção.
Eu prometo, por toda a minha vida
Ser somente tua e amar-te como nunca
Ninguém jamais amou
Ninguém.
Oh! meu bem amado, estrela pura aparecida...
Eu te amo e te proclamo
O meu amor, o meu amor
Maior que tudo quanto existe!
Oh! meu amor.
Por Toda a Minha Vida, Elis Regina,
Composição: A.C. Jobim/V.Moraes
Imagem: K. Gibran
* Assim adormeço. Com esperança.
26.4.08
Samba em prelúdio
Eu sem você não tenho porquê,
porque sem você não sei nem chorar.
Sou chama sem luz, jardim sem luar, luar sem amor, amor sem se dar.
E eu sem você sou só desamor, um barco sem mar, um campo sem flor,
Tristeza que vai, tristeza que vem...
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.
Ah! Que saudade... que vontade de ver renascer nossa vida.
Volta querido! Os meus braços precisam dos teus,
Os teus abraços precisam dos meus.
Estou tão sozinha... tenho os olhos cansados de olhar para o além.
Vem ver a vida!
Sem você, meu amor, eu não sou ninguém.
Vinicius de Moraes
5.4.08
O Insaciável Homem-Aranha
(...) A pensar em tudo isto massajo-me um pouco e a tranca pôs-se-me tesa e grossa. Masturbo-me. Suave. Com a ponta dos dedos. Júlia deve estar acordada e não quero que saiba que estou excitado, a pensar na negra Ivón. Ahhh, que bom. Toco na Júlia. Ponho a mão no seu sexo. Masturbo-a um pouquito. Molha-se:
- Vem. Espeta-te.
- Não, não! Tu, tu.
- Vem cá tu e espeta-te, pa’gozares.
Falamos num sussurro. A dois metros de nós fica a sala e a minha mãe dorme. Isto é pior que uma gruta. Põe-se às cavalitas em cima de mim e espeta-se ela mesma. Apenas com dois centímetros dentro tem o primeiro orgasmo. Tenho de lhe tapar a boca com as mãos porque se entrega e suspira. Sufoca-se como uma odalisca. Nessa posição vem-se sempre como uma adolescente. Uma e outra vez. Ela mesma comanda. Quem é que disse que está na menopausa? Sobe, desce, bate para os lados. Crava-se a fundo. Todo dentro: dezoito centímetros. Ela faz tudo. e eu ali, de barriga para cima, sossegado, com os olhos fechados e a pensar em Ivón. Como me agrada essa preta e como eu lhe agrado! Adora trepar-me em cima às cavalitas e tem um orgasmo atrás do outro. É escandalosa e grita e suspira. Tem trinta e sete anos, mas fica extenuada em cinco minutos. Quando já não aguenta mais, deito-a de barriga para cima, trepo eu e demoro uma hora ou mais. É isso que tem de bom a minha idade: nunca tenho pressa e já não procuro, encontro. A negra engatou um galego há um ano. Creio que é de Vigo. Engordou, a ganda cabrona. Saca-lhe bastante dinheiro e arranjou umas mamas e um cu de campeonato. Estava magra devido à fome e eu a julgar que era pela estética. O galego baba-se atrás dela e até garrafas de bagaço lhe traz. Melhor dito: traz-me. Ele nem imagina para quem carrega o bagaço. Ivón não bebe.
Com a Júlia não consigo foder tanto. Não me excito bem. Deixo-a ter três ou quatro orgasmos e ala. Aborreço-me. Cada vez gosto menos das brancas. Deitamo-nos um ao lado do outro. Sem falar. Nem uma palavra de amor. Apenas um par de beijos insossos. Não sei como é possível que consiga ter tantos orgasmos. Ela não percebe que isto já se acabou? Não entende que continuamos juntos por inércia e ladeira abaixo? Foda-se, que mulher mais estúpida e persistente! Continuamos a suar como duas mulas. Só há uma ventoinha e ontem à noite deixei-a à minha mãe. Relaxo-me o mais que posso. Tenho uma poça de suor nas costas. Ao menos esta noite não há mosquitos. A Júlia já ressona. Adormeci.
(...)
16.3.08
como flores.
Não lhe chamava amor, mas percebia que se virara para ele, como há flores que se viram para o sol e mais não fazem do que o acompanhar.
© Hélia Correia
10.8.07
Pecado é

Falados os segredos calam
E as ondas devoram l é g u a s
Vou lhe botar num altar
Na certeza de não apressar o mundo
Não vou divulgar
|Só do meu coração para o seu|
Pecado é lhe deixar de molho
E isso lhe deixa louco
_Não, eu não vou me zangar
Eu não vou lhe xingar
Lhe mandar embora
Eu vou me curvar
Ao tamanho desse amor _Só o amor sabe os seus
Não, eu não vou me vingar
Se você fez questão
De vagar o mundo
Não vou descuidar
Vou lembrar como é Bom
E ao amor me render.
Tribalistas _Pecado é lhe deixar de molho
5.8.07
cinzas.




São horas. Fechas a porta. Deixas atrás o teu coração cheio e o nosso quarto vazio. Antes de abrires a porta do carro, levas o rosto ao espelho retrovisor, na esperança que ao menos ele te lembre que ainda existes.
Tens os olhos rasos de vida, minha pequenina.
Sentaste no banco do carro que sempre e tanto quisemos comprar.
Levas a chave á ignição e reparas na carica de cerveja que me levou a conhecer-te e depois a amar-te e depois a amar-me por te conhecer e amar.
Choras.
Apertas a carica até ela te magoar, mas não magoa, consegues apenas sangrar-te um pouco.
Pões o carro a trabalhar. Olhas, pela ultima vez queres pensar tu, para o apartamento que foi também nosso jardim, nossa quinta, nossa concha, nosso hotel, nosso universo. Dizes-lhe adeus. Soletras a palavra como se fosse a primeira vez que dizes adeus a alguma coisa. Choras mais um bocadinho. Aproveitas as lágrimas que te restam.
Olhas para o espelho e vês-te horrível, borratada, descabelada e gorda. Escutas-me a voz e nela o que te dizia quando te apanhava a chorar em frente ao espelho.
(Só a minha imagem me conforta. Sempre gostaste de ver tudo de ti. De ver-te nas coisas, nas emoções, nas relações. Quando não tinhas um espelho por perto, saías de ti e entravas na primeira coisa que se ligasse a ti. Este exercício, a que chamavas de auto-empatia, deixava-te de rastos. Sugava-te, porque de cada vez que te viravas para ti mesma tudo o resto ganhava mais distância. E ainda hoje sabes pouco do que és quando olhas o mar, ou quando tropeças no passeio, ou sentes aquele cheirinho a pão, ou quando fazes amor.)
Com o carro a trabalhar, tentas fazer o teu exercício mas agora em nada te consegues entranhar para te poderes ver. Nada te reflecte. Em nada te podes ver vista.
Já não choras. Tens os olhos vermelhos de parir tantas lágrimas.
De mãos no volante, olhas para nada. De tão pesada que tens a alma, os teus sentidos afogaram-se.
Ligas o rádio e, porque não queres tropeçar sobre nenhuma música que eu e tu já escutámos, escolhes as notícias. Mas as notícias do mundo não te afastam um milímetro de mim e de ti.
Enfureceste por já não teres lágrimas e depois por já não me teres a mim. Irritaste porque a culpa é minha de tudo. É.
Arrancas com o carro, furiosa. Voas. Decides finalmente levar-me para longe de tudo e, sobre-tudo, de ti.
Casas. Arvores. Lixo. Casas. Terra. Carros. Pessoas. Bichos. Casas. Arvores. Mas de nada disso te dás conta agora, porque pensas em mim e decides libertar-te de mim. Finalmente.
E lá vais tu olhando para os espelhos do carro, das montras, dos cruzamentos. (Sim, existes.)
Depois, como te pedi, retiras a capota do nosso lindo carro (tens tanta sorte em estarmos em Junho) soltas o teu cabelo cor de avelã que ainda tem restos dos meus beijos e colocas aquela minha música. «...let the show begin...» Alto. Mais alto. Muito alto. Vais passar por maluquinha, miúda.
Repeat. Repeat.
Chegas ao mar. O mar…
Entras no caminho de terra vermelha e segues até ao lugar que foi nosso ninho tantas vezes. Do coração chega-te a memória da noite em que amolgámos o capon do carro do meu pai enquanto estávamos na marmelada. Sorris e sacas mais um par de lágrimas aos teus olhos esgotados.
Repeat. «...But it's all just a show A time for us and the words we'll never know And daylight comes and fades with the tide...» Repeat.
Páras o carro. Lá ao fundo o sol acasala com o mar e inspiras bem fundo o cheiro de todo aquele cio de luz e água.
Exausta, consegues abrir as asas e partir em direcção àquele acasalamento divino. Reparas que saíste de ti. Finalmente. Vês-te á beira daquele precipício. Vês-te feia, desesperada, ao lado de um carro. Sorris outra vez e chamas-te estúpida e outros nomes. Ris-te enquanto á tua frente flutuam imagens em cores vivas que evocam instantes e do que foste, neles, aprendendo de ti.
Depois lembras-te de mim e regressas, apressada, ao meu encontro.
«...And daylight comes and fades with the tide _I'm here to stay.»
São horas.
Abres a porta do teu carro.
Estendes a tua mão quente e confias, de olhos fechados de nós, as minhas cinzas ao horizonte.
2.8.07
amor de carne.

se trata apenas de carne.
Minha pequenina, fugias a correr se um homem te confessasse que só queria a tua carne. E compreenderias o que é a sensação atroz da solidão."
Milan Kundera,
A Ignorância
4.7.07
flores.

Enchi-me de coragem e entrei.
Era a primeira vez que entrava numa florista. (As coisas que agora eu faço por ti.)
Sempre te colhi tantas flores… e agora, uma mancha negra instalada no teu cérebro obriga-me ao abandono dos costumes. Obriga-me a procurar a novidade e a raridade. Força-me ao sufoco e urgência da surpresa e brilhantismo – ingredientes necessários a qualquer redenção. É o início do derradeiro sprint. Da tua viagem sem regresso. E cá vou eu, em busca de todas as coisas que, supostamente, tornarão mais bela a tua partida (supostamente).
A loja era pequenina. Tinha flores nas paredes, nos cantos, a nascer do tecto. Sobre um pequeno balcão de madeira enegrecida ou pela força da estética ou do tempo, crescia uma caixa registradora com pequenos vasos de plantas anãs, verdes e castanhas. Um Éden privado, com cheiro a baunilha – e não sei porquê baunilha. Não havia mais ninguém.
Comecei, como um profissional, a examinar aquele jardim, apesar do meu quase incontrolável impulso de me roçar, cheirar e libertar do cativeiro todas aquelas cores. Mas não me atrevi a aproximar demais. A senhora ao balcão, enquanto mexia na caixa registradora com vasinhos, olhou para mim e sorriu, condescendente. Com aquele sorriso de quem se acostumou a ser para os homens que vão a floristas uma espécie de fada-madrinha, deixou-me à espera das suas palavras.
«Precisa de uma ajudinha? Olhe que as felizardas, hoje em dia, estão cada vez mais exigentes!»
Eu sorri-lhe de volta, com embaraço nos gestos e a tua imagem de moribundo no coração. Sempre foste um felizardo e um exigente. Apaixonei-me por ti exactamente por isso, por seres capaz de ser feliz e exigente ao mesmo tempo, eu, que nunca pensei que tal fosse possível, mesmo agora, que esse maldito vulcão se agita dentro da tua cabeça e me faz t(r)emer que, sem dar conta, expludas.
«Se é para um amor, já sabe: rosas vermelhas!» E terminou a revelação citando a tal Isabel que foi santa por ter queda para milagres e jeito para pobres.
Quantas flores te ofereci? De todas as cores e formas e cheiros. Uma vez até tive coragem de te colher uma orquídea – a minha flor perfeita – que sacrifiquei para que tu perdoasses a minha cobardia, o meu modo de te abraçar e beijar e olhar como quem atravessa uma estrada _olhando sempre, e primeiro, para os lados.
«Se for só para uma amiga, temos…» e vi-me outra vez contigo, naquela tenda de campismo, em Mil Fontes. «Não penses que me vou contentar com isso. Eu quero ser feliz.» Foi assim que te comecei a amar, envergonhado, arrebatado pelas tuas mãos que, não satisfeitas com as minhas, me tomaram o corpo inteiro e a alma toda, deixando-me sem pé, sem abrigo, do lado de fora de mim mesmo. Meu feliz e exigente amor!
Depois desse dia passámos, como contam as histórias dos livros, a ser só um. Arranjei desculpas para que me deixasses entrar, com a tua licença, na tua vida, na tua cama, na tua cabeça – como eu percebo essa maldita mancha. Também eu me apaixonei por esse lugar de onde nasciam as palavras que me incendiavam. Também eu desejei invadir-te, desconstruir essa rede de neurónios onde se prendiam, como moscas numa teia, todos os mistérios do universo e a toda a lógica necessária para o decifrar. Mas sem te magoar. Sem te sugar a vida, é claro.
«… E então? Já se decidiu?». Agradeci à fada-madrinha das flores e saí com um par de lágrimas a rebentarem-me nos olhos.
Estas à minha espera. As tuas únicas visitas sou eu e a minha devoção. Perdeste tudo o resto quando me ganhaste e fizeste questão em me mostrar, orgulhoso, a toda a gente. Preteriste o teu pai e a sociedade lucrativa na sua empresa. Abandonaste o futuro feliz que a tua mãe bordou nas toalhas para o teu enxoval. Bateste nos teus amigos quando soubeste que me tinham batido por causa do que eu fiz ao teu sossego, à tua carreira, à reputação da tua família, à tua herança, ao teu futuro perfeito.
Conduzo sôfrego, como se tivesse que atravessar o mundo todo para chegar a ti. Acelero porque a qualquer momento aquele quarto de hospital pode desabar sobre o teu peito e tirar-me o direito de me aninhar sobre ele uma última vez. Vou sem flores e sem esperança. Vou sem querer regressar e deixar-te para trás.
Já só olhas para mim porque te esforças. Olhas-me sem instinto. Quem me olha agora é essa invasora que tomou, traiçoeiramente, o epicentro do teu corpo e anexou todos os outros lugares da tua pele. Mas eu sei que ainda és tu, meu amor, nessa sombra. Alguma parte de ti escapou a essa negra ditadora que te condena à morte.
Dou-te uma orquídea. Mil. Biliões, para te pedir, mais uma vez, perdão. Para te implorar que não sucumbas ou que, pelo menos, me leves contigo. Porque agora sou só. Desesperado. Triste. Como era antes da tua aparição. Nenhuma flor tem o teu cheiro.
«Precisa de uma ajudinha? Olhe que as felizardas, hoje em dia, estão cada vez mais exigentes!»
Conto-te o meu episódio na florista. Falo-te da fada-madrinha e da sua caixa de dinheiro e vasos, e da sua infinita e floral sabedoria. Conto-te como se te descrevesse um qualquer pequeno acidente doméstico mas tu, que sempre me leste em todas as entrelinhas, sorris e olhas-me com pena.
Pego na Bic e no bloco de folhas que te deixei na mesa-de-cabeceira, para o caso de decidires deixar-me, escritas, as tuas ultimas palavras, e em silêncio, com a minha mão a segurar a tua, começamos, a desenhar uma flor, daquelas que qualquer criança é capaz.
Acabo. E tu, sozinho, colocas primeiro dois pontinhos e depois uma linha curva no centro redondo da nossa flor e dizes: «Tem que estar feliz!». E enquanto eu choro, o que resta de ti toma as rédeas da tua mão e vai aperfeiçoando a nossa obra com sombras, padrões e realidade.
Assim ficas. Continuas a desenhar-me flores, mas agora sem pressa, apenas com vocação.
Enquanto aguardo o nosso reencontro, tenho, sobre a mesa-de-cabeceira, a mais feliz, perfeita e bela flor que alguma vez vi. A minha herança. O teu testemunho. A nossa metamorfose. A única coisa que hoje me fala de ti, do que sempre foste e do que fizeste da minha vida.
José Laura Saavedra
TUeu

|22FEV2007|
Este foi o nosso último abraço. E quando,
daqui a nada, deixares o chão desta casa
encostarei amorosamente os lábios ao teu copo
para sentir o sabor desse beijo que hoje não
daremos. E então, sim, poderei também eu
partir, sabendo que, afinal, o que tive da vida
foi mais, muito mais, do que mereci.
Maria do Rosário Pedreira




