sê-te Deus
e para o nada que é tudo
__inventa__caminhos____teus____"
Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
I. O poder da língua
Ha uns dias eu e a Ana, podres de bêbados, en faisant la fête, andávamos por aqui e por ali a meter as nossas línguas nas bocas da malta quando o Rui apareceu e, de mansinho, pôs-se a jeito.
O Rui é um amigo nosso que gosta muito de meninas e de as amar com todos os músculos do seu corpo – este é o zénite da sua masculinidade.
Moral da historia: o Rui gostou das nossas línguas. E depois de o confessar, quis mais festa. Mas eu e a Ana, não.
Os dias passaram e no fim-de-semana seguinte, quando a Ana estava no seu País-das-Maravilhas, o Rui regressou, cheio de curiosidade e com os músculos no seu lugar, á procura da minha língua e outras extensões.
P’ra variar, disse-me.
Marco X.
II. Se eu fosse
- Se fosses uma gaja dava-te uma queca...
Respostas:
A) Se eu fosse uma gaja tu não entrarias na minha cadeia alimentar.
B) E se tu fosses um homem a sério nunca me dirias uma merda dessas.
C) Só uma?...
Dado
III. A beleza interior
Passava o tempo todo a dizer que o que importava era o que estava por dentro. Que a verdadeira beleza estava para além da forma do corpo. Por dentro. Que facilmente se apaixonaria por alguém amputado, de outra cor, obeso, cego, anão...
Porque o verdadeiro amor não tem limitações. Porque quando se ama, ama-se e pronto.
Um dia quando um homem lhe confessou o seu amor, descobriu que afinal a beleza interior começa e acaba no meio das pernas.
Frederico M.
(...) A pensar em tudo isto massajo-me um pouco e a tranca pôs-se-me tesa e grossa. Masturbo-me. Suave. Com a ponta dos dedos. Júlia deve estar acordada e não quero que saiba que estou excitado, a pensar na negra Ivón. Ahhh, que bom. Toco na Júlia. Ponho a mão no seu sexo. Masturbo-a um pouquito. Molha-se:
- Vem. Espeta-te.
- Não, não! Tu, tu.
- Vem cá tu e espeta-te, pa’gozares.
Falamos num sussurro. A dois metros de nós fica a sala e a minha mãe dorme. Isto é pior que uma gruta. Põe-se às cavalitas em cima de mim e espeta-se ela mesma. Apenas com dois centímetros dentro tem o primeiro orgasmo. Tenho de lhe tapar a boca com as mãos porque se entrega e suspira. Sufoca-se como uma odalisca. Nessa posição vem-se sempre como uma adolescente. Uma e outra vez. Ela mesma comanda. Quem é que disse que está na menopausa? Sobe, desce, bate para os lados. Crava-se a fundo. Todo dentro: dezoito centímetros. Ela faz tudo. e eu ali, de barriga para cima, sossegado, com os olhos fechados e a pensar em Ivón. Como me agrada essa preta e como eu lhe agrado! Adora trepar-me em cima às cavalitas e tem um orgasmo atrás do outro. É escandalosa e grita e suspira. Tem trinta e sete anos, mas fica extenuada em cinco minutos. Quando já não aguenta mais, deito-a de barriga para cima, trepo eu e demoro uma hora ou mais. É isso que tem de bom a minha idade: nunca tenho pressa e já não procuro, encontro. A negra engatou um galego há um ano. Creio que é de Vigo. Engordou, a ganda cabrona. Saca-lhe bastante dinheiro e arranjou umas mamas e um cu de campeonato. Estava magra devido à fome e eu a julgar que era pela estética. O galego baba-se atrás dela e até garrafas de bagaço lhe traz. Melhor dito: traz-me. Ele nem imagina para quem carrega o bagaço. Ivón não bebe.
Com a Júlia não consigo foder tanto. Não me excito bem. Deixo-a ter três ou quatro orgasmos e ala. Aborreço-me. Cada vez gosto menos das brancas. Deitamo-nos um ao lado do outro. Sem falar. Nem uma palavra de amor. Apenas um par de beijos insossos. Não sei como é possível que consiga ter tantos orgasmos. Ela não percebe que isto já se acabou? Não entende que continuamos juntos por inércia e ladeira abaixo? Foda-se, que mulher mais estúpida e persistente! Continuamos a suar como duas mulas. Só há uma ventoinha e ontem à noite deixei-a à minha mãe. Relaxo-me o mais que posso. Tenho uma poça de suor nas costas. Ao menos esta noite não há mosquitos. A Júlia já ressona. Adormeci.
(...)

Hoje não me canso de escutar esta música. Naufrago nela. Escuto’a dentro. Por dentro. Cada nota. Cada palavra. A voz da Lhasa tem mãos e garras e abismos. _Esquematizo uma Libertação._ Penso num homem (?) que parte hoje para Africa porque o seu espaço se tornou pequeno.
|… Then I’ll die three times
And be born again
In a little box
With a golden key
And a flying fish
Will set me free …|
Escrevo para o homem a caminho de África. Para a Lhasa. Para mim e para os meus que deixei no/a caminho dos espaços que se tornaram demasiado pequenos para alguém.
Penso no que a vida me dá e no que não sei se me deve. Penso que expludo. Que me transformo em peixe voador e depois cinzas. Penso nas minhas mortes de todos os dias _ partidas, adeus, despedidas, desprendimentos, renúncias e suas respectivas bandas-sonoras.
Penso que me derreto.
Penso nas coisas que quero fazer a olhar de frente e nas outras que me irão surpreender pelas costas. Penso em agradecer por isso. |agradeço muito, eu.| Penso em rir’me de mim e com aqueles que me fazem cócegas na Vida. Penso e o meu espaço estreita-se, agora.
|too smal!|
Penso em bagagens e asas e incertezas e vertigens _e lágrimas, porque não? Penso que a vida continua a mesma aqui à minha volta.
E cá estou eu a morrer e a renascer _outra vez. Diferentemente, outra vez.
Penso no César. Na Vera-do-Meu-Coração. Na MãeTina. Nas Manas-Luz. Na minha princesa Bia e no meu mais recente príncipe Gui. Penso no Daniel, na Bita, no Mário, na Ana, no André, na Jaulas, na Andreia, na
Ah, os dias! |…|
E assim vou tatuando braços à volta dos meus.
E assim vou levando sorrisos _como bandeiras_ às regiões mais remotas e frias do meu coração.
E assim vou colocando palavras sobre a mesa redonda e modesta do meu coração, que sirvo, com algum aprumo, aos espaços da minha vida.
|… And my dust will tell
what my flesh would not.
Soon this space will be too small _And I’ll go outside. |
And i’ll go outside.