24.9.11
Primeiras folhas
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.
Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.
Que procuras? Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.
A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?
Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)
Quero solidão.
Despedida, de Cecília Meireles
4.12.08
Eu devo.
...
- Eu devo rasgar minha face para que a tua
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.
...
Herberto Helder, O Amor em visita
1.12.08
30.11.08
Por causa de um desafio...
Aqui ficam as respostas que, quebrando algumas regras, fui buscar... ainda não sei bem onde...
1. És homem ou mulher? Hunter, Björk
2. Descreve-te: Cantus in Memory of Benjamin Britten, Arvo Pärt
3. O que as pessoas acham de ti? Human behavior, Björk
4. Como descreves o teu último (antes do actual) relacionamento? Man is the Baby, Antony & The Johnsons
5. Descreve o estado actual da tua relação amorosa: Pagan Poetry, Björk
6. Onde querias estar agora? The Anchor Song, Björk
7. O que pensas a respeito do amor? Por toda a minha vida, Elis Regina
8. Como é a tua vida? Caught a Lite Sneeze, Tori Amos
9. O que pedirias se pudesses ter só um desejo? La Folie, The Gift
10. Escreve uma frase sábia: The Heart Asks Pleasure First, Michael Nyman
Obrigado C., por esta viagem.
_*
12.9.08
à espera de ser aberto por uma palavra
Não sei
se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo não sei. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida, estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa
25.7.08
quando te vejo*
Escrevo,
certamente,
palavras inúteis,
porque não sou mais
do que um arrepio
quando te vejo.
Vitor Encarnação, Coisas de Muros e de Asas
24.7.08
2.1.08
(raios de luz-por-dentro)
Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios para que a luz os mordesse
como se morde a romã.
Nuno Júdice

_ ... E nos teus braços, que nenhum mar cansa, me aninho
como se nunca tivesse conhecido a mornidão da Ternura.


