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26.2.09

Igualmente.

Somos de natureza contrária.
Um de nós pode destruir o outro, mas só por fora,

uma onda que vem
de muito longe, demora a chegar
à praia, ao sol que soçobra
no lugar onde nós estamos,
entregues, entristecidos. Dentro,
no interstício de silêncio
ameaçado pela despedida, sempre
de despedida ameaçado, nenhum
de nós* será destruído nunca,
a memória da rua com plátanos,
o pólen mordente da primavera,
o cântico dos pardais. Não,
eu não quero esse amor indeciso
que soçobra num frio inebriante:
cada um com o outro tenta conservar
o seu ser, a identidade que sorri
na janela do quarto que fica por fechar.




Joaquim Manuel Magalhães


_

* para ti, que crês que te sou igual sempre que te estranho.



1.2.09

Deixa-me...


Deixa-me amar-te com ternura, tanto
Que nossas solidões se unam
E cada um falando em sua margem
Possa escutar o próprio canto.

Deixa-me amar-te com loucura, ambos
Cavalgando mares impossíveis
Em frágeis barcos e insuficientes velas
Pois disso se fará a nossa voz.

Deixa-me amar-te sem receio, pois
A solidão é um campo muito vasto
Que não se deve atravessar a sós.

Lya Luft

17.10.08

Azul



Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na
carne dum segredo.


Natália Correia




9.10.08

Extinguia-se



Extinguia-se o perfume dos vermelhos nenúfares.
O ar leve do Outono penetrava através das pérolas de jade da cortina.
Quem me mandava essas mensagens de amor, desde as nuvens,
na barca das orquídeas, ao resplendor das tochas?
É a estação em que voltam os cisnes bravos
e o luar inunda o pavilhão do oeste.
As flores - é a sua sina - revoluteiam e espalham-se.
A água segue ao seu destino correndo a concentrar-se num mesmo lugar.
Os seres da mesma espécie convergem num mesmo sonho.
Mas nós, ai!, estamos separados, e eis-me aqui, solitária, já em excesso acomodada à tristeza.
Nada será bastante para destruir este amor.
Por um momento deteve-se nos meus olhos; mas agora gravita já no meu coração.


Li Ts'Ing Chao

18.8.08

em-fim.

Olho-te enquanto me olhas.

Fere-me esse brilho que te desce do olhar à boca.

Penso em beijar-te.

Dizes coisas que não escuto porque me detenho no movimento da tua boca.

Apercebes-te que respiro profundamente e reconheces o meu desejo.


Olhas-me enquanto te olho.

Aqueces-te no fogo do meu cio.

Pensas em beijar-me.

Procuras palavras que denunciem o meu lugar de rebentação.

Apercebo-me que respiras profundamente e reconheço o teu desejo.




Culpados e submissos, amamo-nos em-fim.